Adriana,
Em 2010 ou 2011, eu fui à Inhotim com meus colegas de
faculdade. Eu tinha acabado de entrar no curso e fiquei bastante encantado. De
lá para cá muita coisa mudou. Eu costumo pensar que sou outra pessoa. Não pelo
curso ou pelos anos que se passaram, mas por alguns problemas de saúde que me
acometeram e que mudaram, inclusive, minha personalidade. Porém, naquela
ocasião, incomodaram-me as suas resoluções de tinta à óleo e isto permanece. Eu
continuo achando que elas poderiam ser melhor solucionadas de outra maneira.
Nesta nova oportunidade de ver seu trabalho, na exposição
“Adriana Varejão – por uma retórica canibal?”, eu muito refleti sobre o por que
você teria feito estas escolhas e não outras que eu considero melhores. É claro
que um dos fatores é que você é diferente de mim, mas entenda meu pensamento:
ao falar de carne, do antropofágico e do canibal, por que escolher a tinta à
óleo? Eu sei que você disse que ela mantém a umidade, mas eu quero ir mais
além. Dentre tantas opções que aproximariam seu trabalho das entranhas[1],
que eu acredito que, muitas vezes, ele evoca, você escolheu a tinta.
Eu conversei com alguns colegas. Surgiram algumas teorias
sobre sua escola e também sobre o mercado da arte. Eu até levei em consideração
no começo, mas depois voltei aos mesmos questionamentos iniciais. Eu sou um
homem transgênero e acredito que toda pessoa cisgênera (quem não é trans) é
transfóbica, em maior ou menor grau, e que ela pode ou não estar disposta a se
desconstruir. Não acredito nestes discursos que usam idade, formação ou
qualquer outra coisa para justificar preconceito. O mesmo serviria sobre sua
formação: não existe determinismo e não precisamos ficar presos a um mesmo
caminho. Já sobre o mercado da arte, o que não me convenceu foi que ele consome
não só o produto final, mas também os registros, os resíduos, etc. Então isso
não seria um empecilho.
Engraçado que esta semana mesmo fui a uma conversa com o
artista Fábio Magalhães e ele disse uma frase que eu até anotei para te falar:
“o material tem certas verdades que, às vezes, uma imitação não dá conta”. Não
concorda?
É um pouco difícil para mim te dizer todas estas coisas
porque estamos em situações muito diferentes... Eu sou um estudante de
mestrado, sem bolsa de pesquisa, e isso faz com que eu busque estas verdade, às
vezes, por caminhos que não são os que eu gostaria. Quero dizer, muitas vezes a
imitação tem que dar conta. Hoje mesmo
comprei um metro de seda pura, mas isso me custou um terço de mercado do mês,
entende? O que se pode fazer nesta situação?
Samuel Harumi
Salvador, 26 de abril
de 2019
[1]
“Entranhas: 1. Ventre materno. 2. Coração (considerado como sede dos
sentimentos). 3. Instintos, sentimentos; caráter. 4. Recesso, íntimo, âmago. 5.
Centro, interior; profundidade”. PRIBERAM. Priberam
Dicionário, 2019. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/entranha.
Acesso: 19/04/2019
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